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The Dreadful Dragon Heavy-Foot

( First posted in Portuguese,  in March 2011,  when J. was 5  years old) For my niece, Jessica Long ago when animals used to sp...

Tuesday, 8 March 2011

O Temível Dragão Pé-Pesado

          Para a minha sobrinha, Jessica (5 anos)


Há muito, muito tempo, numa época em que os animais falavam, no Reino das Flores, havia um palácio com um rei, uma rainha e uma princesa. Apesar do nome bonito do Reino – o Reino das Flores – as pessoas que vivam lá não eram muito felizes. Essa infelicidade começara há sete anos atrás, quando o dragão Pé-Pesado se mudou para as montanhas ali perto. Era um dragão enorme que ao andar fazia estremecer a terra. Mas se fosse só isso! Não, para o manter afastado das casas, os idosos tiveram que ceder às exigências do dragão: a cada três meses uma menina teria de lhe ser entregue. Ninguém sabia o que o dragão fazia às meninas: apenas sabiam que as meninas nunca mais eram vistas. Desapareciam por completo.
         Estava na altura de entregarem mais uma menina ao dragão e toda a gente andava ainda mais triste do que o costume. Ora, só já existiam duas meninas no reino: a princesa Jessica e a sua melhor amiga, a Constança. Os nomes das meninas foram escritos em dois pedaços de papel, postos dentro de um chapéu e um deles foi tirado à sorte. As mãos do rei tremiam ao desdobrar o papelito.
          – Constança! – disse o rei com uma vóz trémula e triste, mas ao mesmo tempo um pouco aliviado por a sua filha ter escapado mais uma vez ao sacrifício. Só que só estaria salva durante mais três meses.
          – Não! – gritou a corajosa princesa Jessica. – Eu vou com a Constança. Ninguém nos vai separar.
          E assim foi. De mãos dadas, a princesa Jessica e a sua melhor amiga, Constança, começaram a subir a montanha do dragão Pé-Pesado. Para afastar o medo, decidiram cantar a canção dos patinhos que nadavam para longe e cada vez que regressavam a casa, faltava sempre um, até que um dia não apareceu nenhum; nesse dia, a mãe pato gritou bem alto e todos os patinhos regressaram. Por isso, quando chegaram à caverna do dragão, não estavam a chorar como sucedera anteriormente com as outras meninas. Este facto surpreendeu o dragão Pé-Pesado que, pela primeira vez, falou com as suas vítimas.
          – Hmmmm! Aqui há gato! – disse Pé-Pesado com voz zangada. – Desta vez mandam-me duas de vocês e parece que não vêm assustadas. O que é que estão a tramar?
          – Pois, engana-se redondamente, Sr Dragão! – respondeu a princesa Jessica. – Somos as últimas meninas do Reino das Flores, e eu não quis que a Constança viesse sozinha. É a minha melhor amiga...
          – Sim, somos muito amigas. E também estamos com medo, mas estamos juntas...e apoiamo-nos uma à outra. – acrescentou Constança.
- Jessica (10)
          – Bom, ambas têm o cabelo comprido...yum-yum...Que bom! Parece que hoje vou ter um banquete!
          Inteligente como era, a princesa Jessica, notou algo de estranho nas palavras do dragão e decidiu que seria melhor pedir de imediato um esclarecimento.
          – Hm-hm – disse, limpando a garganta – Sr Dragão, que diferença faz termos cabelo longo ou curto? Se nos vai comer, o tamanho do cabelo não deveria ter qualquer importância.
          – Ha! Ha! Ha! Como te chamas, ó menina perguntadora?
          – Veja lá como fala com a minha amiga. – interferiu a Constança um pouco espantada pela falta de cortesia do dragão para com uma princesa. – Ela é a pri...
          – Sou a prima do Henrique, conhece-o? – interrompeu rapidamente a princesa Jessica, mentindo ao dragão. Achou preferível não dizer quem realmente era. – Chamo-me Jessica. Mas, ainda não respondeu à minha pergunta!
          – Pois quem vos disse a vocês que vos ía comer? Eu apenas como o vosso cabelo...
          – Mas, então, para onde vão todas as meninas que são enviadas até aqui? – perguntou a princesa Jessica bastante intrigada.
          – Pois, do lado de lá da minha gruta há um jardim...elas ficam por lá. Não sei porquê, mas ficam sempre a chorar quando lhes como o cabelo, e depois não querem voltar para casa...
          – Devem ter vergonha de voltar para casa a parecerem rapazes. – disse timidamente Constança, quase a chorar, pois também ela não queria voltar com o cabelo rapado.
          – Não sei nada disso. Só sei que quando decidem atravessar novamente a gruta, já têm o cabelo comprido, e eu zuuuuuuuupa, volto a comê-lo antes que consigam escapar... – E dizendo isto, o dragão Pé-Pesado começa a aproximar-se das duas raparigas, lambendo os beiços em antecipação do belo petisco – desta vez, a dobrar! – que o esperava.
          – Alto! - gritou a Princesa Jessica, com um tom majestoso. Depois, arrependendo-se, acrescentou com um tom mais suave e humilde:
          – Só mais umas perguntinhas...se me permite, claro, Sr. Dragão.
          O dragão Pé-Pesado parou e, pela primeira vez em muitos séculos, sorriu de orelha a orelha. Achava piada a essa miúda de língua perguntadora. Nunca ninguém se tinha dado ao trabalho de falar com ele. Pela primeira vez, sentiu que estava a conviver com outros seres.
          – Então o que foi desta vez?
          – E porque é que só come cabelo de meninas e não de meninos ou de adultos?
          – É assim...No início, ía até à vossa terra e toda a gente fugia a sete pés. Como as meninas costumam cheirar melhor do que os rapazes...talvez por causa do shampoo que usam, não sei...era mais fácil encontrá-las. Depois, os idosos da terra vieram negociar comigo, e começaram a enviar-me apenas meninas...
          – Ah! Como o Sr. Dragão só apanhava meninas, deviam pensar que só nos queria a nós...Constança, tenho um plano. Pára lá de chorar...Não faz mal, deixamos que nos coma o cabelo, vamos buscar as outras meninas e voltamos para casa!
          – O que estás para aí a dizer? Eu não quero ficar careca!
          – Não vamos ficar carecas. Apenas ficamos com o cabelo curtinho. Também não costumas ir ao cabeleireiro de vez em quando? Olha, é como criarmos uma nova moda de cabelo curto. Além do mais, ele volta a crescer!
                    Depois, voltou-se para o dragão e começou a negociar:
          – Ouviu, Sr. Dragão? Pode comer o nosso cabelo, mas não todo. Depois, quando voltarmos para o meu reino, vou arranjar maneira de lhe enviar um cesto cheio de cabelo por semana. Todas as semanas! Sabe, se tivesse explicado bem a sua situação aos idosos do reino, já há muito que teria cabelo para comer com ainda mais regularidade.
          – Como assim? – perguntou o dragão estupefacto.
          – No nosso reino há cabeleireiras e barbeiros cujo trabalho é cortarem o cabelo das pessoas. Todos nós cortamos o cabelo regularmente e de livre vontade.
          – E que fazem com esse cabelo todo que é cortado?
          – É isso que estou a tentar explicar-lhe: não temos grande utilidade para ele. O que está em bom estado ainda se consegue aproveitar para fazer perucas...mas a maior parte vai para o lixo.
          – Ai! Não posso crer! – disse o dragão deitando as mãos à cabeça. – Como podem fazer uma barbaridade dessas?
          – Ora, ninguém sabia que o senhor gostava só do nosso cabelo! – disse Constança, com um suspiro de alívio.
          E foi assim que tudo aconteceu. Assim que o dragão comeu o seu cabelo, as duas amigas foram buscar as outras meninas que agora viviam no jardim do lado de lá da gruta do dragão. Assim que viram a Princesa Jessica, também com o cabelo curtinho, e ouviram o seu plano, todas elas ficaram alegres e cheias de esperança.
          Novamente cantando a canção dos patinhos, a multidão de meninas desceu a montanha para voltarem para os braços dos seus pais, tios, avós, manos e primos. Houve uma Assembleia Geral onde a pequena princesa explicou o plano aos pais e ao resto da população em simultâneo.
          Que solução tão simples para o seu problema! Estavam todos muito orgulhosos da pequena princesa que, certamente, um dia se tornaria numa bela e justa rainha.
          – Só mais uma coisa. – disse a princesinha, agora com uma lágrima no canto do olho. Não fui só eu que fui corajosa...Se a Constança não estivesse ao meu lado, talvez não tivesse sido tão fácil falar com o dragão Pé-Pesado. Acho que nos apoiámos uma à outra, e estou muito agradecida por ela nunca me ter largado a mão. Sabem, acho que aprendi uma lição muito importante: é possível que consigamos resolver os nossos problemas sózinhos, mas juntos conseguimos ter mais coragem para os enfrentar.
          – Viva a nossa Princesa! - gritaram os subditos.
          – Viva a nossa Princesa e sua fiel amiga Contança!
          E deve ter sido nesta altura que um novo ditado popular surgiu: «Da boca das crianças vem a sabedoria do Mundo».
- Jessica (10)


- COPYRIGHT/Registado no IGAC



Dezembro 2015:  Escrevi esta história, como muitas outras para a minha sobrinha, na altura com 5 anos. Quando ía a meio da história, decidi ler-lha para ver como reagiria. O resultado foi surpreendente e não esperado:  «Podes parar já aí. Eu termino a história! Não quero acabar careca!» Óptimo, pensei eu. É uma óptima oportunidade de a ajudar a desenvolver a sua veia criativa-literária. No entanto, ela parecia resistir a dar um fim à história e quando o acabei por fazer na mesma e lhe terminei de ler a história completa, ela disse apenas que esperasse um pouco e foi para a sala fazer um desenho. Quando voltou para o pé de mim tinha um desenho de uma princesa com cabelo verde. «Toma! Cortaste-me o cabelo na história, por isso desenhei-te com cabelo verde.» Achei adorável e adorei o desenho, mesmo sabendo que na mente dela, não era para gostar, mas antes uma espécie de vingança. Fiquei então a saber que tinha mesmo ficado sentida com a parte do cabelo na história, que de algum modo eu tinha tocado num ponto sensível. Aos dez anos, ela própria que ilustrou a história, da qual até parece gostar bastante. No entanto, gostaria de saber a vossa opinião como pais e possivelmente dos vossos filhos/as; será que ao contrário do que eu acredito ser uma linda história de amizade, entre-ajuda e resolução de problema, é antes história psicologicamente assustadora. Posso contar com o vosso feedback / ajuda? 


Janeiro 2016:  Uma colega leu esta minha história à sua filha de 4 anos. No primeiro dia, a miúda não quis acabar a história, mas no dia seguinte começou a fazer perguntas à mãe sobre o Dragão Pé Pesado. A mãe perguntou-lhe se queria queria acabar de a ler e ela disse que sim. Parece que agora só brinca à volta do tema, e que o Dragão Pé Pesado anda a comer o cabelo das suas barbies...até que chega a princesa e a sua amiga para as salvar. 
Até agora só tive o feedback da minha sobrinha e agora desta menina. Se tiverem filhos, sobrinhos e netos, podiam ler-lhes a história e partilharem as suas reacções no meu blog?

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