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The Dreadful Dragon Heavy-Foot

( First posted in Portuguese,  in March 2011,  when J. was 5  years old) For my niece, Jessica Long ago when animals used to sp...

Sunday, 31 October 2010

Playing the Harpsichord of Life

          There is a story that needs to be told. It happened once upon a time, not so long ago that it could have been forgotten, but too far back in time for anyone to remember when it actually took place.
          Faith was sitting at her harpsichord, wearing a beautiful yellow-toned renaissance dress, her hair pulled back high above her head looking like one of those white epoch wigs – a closer look would confirm that her hair was actually a very white downy piece of cloud. Come to think of it, her shoes were also made of that cloud stuff… Her fingers flowed across the keys, not missing a note. And trust me when I say that this could not have been at all easy, for as she played the powerful beauty of the sound of the musical strings swirled Faith and her harpsichord upwards. However, nothing seemed to distract her, not even the fact that they were soaring further and further away from the ground, spiralling gently to the edge of the sky. But no sooner had Faith arrived than two bright-winged beings slipped their arms in hers and helped her float back down the step-less spiralled staircase.
           Her gliding companions dropped her off by a bench on the threshold of a cliff. And before she could blink they had dissolved into thin air, leaving behind a scent of oranges and cinnamon.
          And what did Faith do next, you ask? Well, there was nothing much she could do but sit down on the bench, grab the long shiny needles that were sitting there beside her and start knitting a huge blanket of grass and flowers. Knit, knit, knit…
          I cannot say how long that went on for, but once she had finished knitting the last stitch, the girl lay down on the bench and pulled the colourful green blanket over herself.
          How peaceful she looked. She must have been really tired for whilst she was asleep first came autumn, then winter…
          Time seemed to tiptoe by quietly so as not to wake her up. But it is widely known that you cannot sleep forever, so one day a Bambi came round to uncover her. As it threw the green blanket with a rainbow of flowers on the ground the world knew that spring had arrived.
          Getting up as fast as she could and with a smile on her face, she knelt down beside the little deer and began to stroke its body. As she touched the spots on its back, they fell into her hands and changed into gold coins right before her eyes. She had to be dreaming, she thought. She rubbed her eyes, the coins tightly locked in her hand. No, she was wide-awake! With no time to process everything that was happening, and before she could muster up any more thoughts, the coins turned into two beautiful white doves, their cotton-cloud wings cut out like paper patterns. And how beautifully and elegantly they danced with their friend the wind! What a brilliant performance! Faith smiled the smile people always smile when they feel carefree and merry, concluding her enthused demonstration of gratitude by twirling in the air and clapping her hands in delight.
          It was in the midst of all this excitement that she felt a powerful magnetic force pulling her downwards and with a thump she fell onto the chair where I was sitting. We were both so startled that we only managed to vocalise a surprised ‘Oh!’. Then, in what must have taken a mere split second she touched my forehead – right here, where the eyes meet – passing the images of her story on to me. Then with a wink, she dissolved into sparkling glitter…
          She was gone, leaving me sitting there at my desk with a tatty old notebook, a used Bic biro in one hand and you, my dearest Jessica (add your child's name instead), on my mind.
          This could only mean that this story was meant for you.
          …So here it is, wrapped in a big bear hug.


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Tocando o Cravo da Vida

          Há uma história que precisa de ser contada. Tudo se passou há algum tempo, não há tanto que possa ter caído no esquecimento, mas há demasiado tempo para que alguém se lembre do momento exacto em que aconteceu .
          Fé estava sentada diante do seu cravo, envergando um lindo vestido renascentista amarelo. O seu cabelo, amarrado no alto da cabeça, parecia uma daquelas perucas brancas e fofas que se usavam antigamente, embora, uma observação mais atenta revelasse que, na realidade, era um fofo pedaço de nuvem branca. Na verdade, os seus sapatos eram também feitos dessa substância fofa ... Os seus dedos deslizavam pelas teclas sem desafinarem. E podem crer que isso não devia ser tarefa fácil pois, enquanto tocava, a beleza do som produzido pelas cordas musicais elevavam Fé e o seu cravo no ar, rodopiando.
           Contudo, nada parecia distraí-la, nem mesmo o facto de estarem a afastar-se cada vez mais do solo, movendo-se em espiral, em direcção ao céu. Mas, mal Fé aí chegou, dois seres de asas brilhantes entrelaçaram os braços nos dela e ajudaram-na a descer, flutuando pela escadaria em espiral, sem degraus.
          Os seus companheiros alados pousaram-na junto a um banco à beira de um penhasco e, antes mesmo de ela ter tido tempo de pestanejar, desapareceram, deixando para trás um perfume a laranja e canela.
          E o que fez Fé a seguir, perguntam vocês? Bem, não havia muito a fazer a não ser sentar-se no banco, pegar nas agulhas brilhantes que estavam a seu lado e começar a tricotar uma enorme manta de relva e flores. Tic – Tic – Tic ...
          Não sei bem quanto tempo se passou mas, ao terminar de tricotar a última malha, a rapariga deitou-se em cima do banco e tapou-se com a colorida manta verde. Tinha um ar tão tranquilo! E devia estar mesmo muito cansada pois, enquanto dormia, chegou o Outono e depois o Inverno ...
          O tempo parecia passar por ela em bicos de pé, para não a acordar. Mas, como toda a gente sabe, não se pode dormir para sempre, por isso, um dia, um Bambi aproximou-se e destapou-a. Ao lançar ao chão a manta verde com um arco-íris de flores, o mundo soube que tinha chegado a Primavera.
          Levantando-se rapidamente com um sorriso nos lábios, Fé ajoelhou-se junto do pequeno veado e começou a fazer-lhe festas. Ao tocar nas manchas brancas que cobriam o dorso do animal, estas caíram-lhe para as mãos, transformando-se, diante dos seus olhos, em moedas de ouro. Só posso estar a sonhar, pensou ela. Esfregou os olhos, segurando firmemente as moedas no punho cerrado. Não, estava bem acordada! Sem tempo para processar tudo o que estava a acontecer e,antesmesmo de conseguir pensar fosse no que fosse, as moedas transformaram-se em duas lindas pombas brancas de asas recortadas, feitas da mesma substância branca das nuvens. E como elas dançavam magnifica e elegantemente com o seu amigo vento! Que espectáculo maravilhoso! Fé esboçou o sorriso que as pessoas fazem quando se sentem despreocupadas e alegres, terminando a sua entusiástica demonstração de gratidão com uma pirueta no ar e batendo palmas de contentamento.
          No meio de toda esta excitação Fé sentiu uma poderosa força magnética a puxá-la para baixo e caiu sentada na cadeira que eu ocupava. Ficámos as duas tão surpreendidas que apenas conseguimos dizer “Oh!”. De seguida, por um brevíssimo segundo, tocou-me na testa – aqui, onde os olhos se encontram – passando-me as imagens da sua história. Depois, com uma piscadela de olho, desapareceu numa chuva de brilhantes ...
          Desapareceu, deixando-me sentada à secretária com um velho caderno de apontamentos, uma esferográfica BIC numa mão e contigo, minha querida Jessica, no pensamento.
          Isto apenas pode significar que esta história é para ti...
          ... por isso, aqui está ela, envolta num grande e apertado Xi-♥.

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Monday, 25 October 2010

O Conto do Girino

           Deixem-me contar como esta coroa passou a fazer parte da herança da minha família.
           Há muitos, muitos anos, a minha bisavó pôs os seus ovos numa linda cama de plantas, rodeada de belos corais brancos.
           Ali, apertados uns contra os outros, estava o meu avô e os seus irmãos, unidos num viscoso abraço. Não passavam de pequenos ovos gelatinosos que nada mais faziam que dormir e observar o mundo exterior, através de um pequeno orifício que cada um tinha no seu ovo.
           Há rumores de que o meu avô era o mais traquina de todos eles. O seu constante balouçar, para encontrar o melhor ângulo de visão, punha os outros enjoados e tontos.
           “Oh, pára!” disse um dos irmãos.
           “Com tanto contorcionismo ainda ficamos tortos e defeituosos,” disse uma das suas irmãs mais nervosas.
           Mas nada do que dissessem mantinha meu avô sossegado.
           “Olha! Olha! Vês aqueles peixinhos brilhantes valsando lá ao fundo?” dizia ele, ignorando os queixumes dos irmãos.”
           “Quando poderei eu ver-me livre destas bolhinhas pegajosas?” ouviam-no dizer muitas vezes.
           “Quando poderei eu brincar entre as conchas e rodopiar nesse espantoso remoinho da corrente?”
           Em boa verdade, quando chegou a hora de deixarem os ovos, todos estavam mais do que ansiosos por explorar o mundo que Taddy Sete – como era conhecido o meu avô – tinha romanceado por tanto tempo e que eles próprios puderam ver dos seus pequenos observatórios.
           “Uáu…olhem para mim. Olhem para mim! Vejam como nado depressa! Livre, finalmente! O Mundo é meu!” gritava o pequeno Taddy Sete.
           “Cuidado, Taddy Sete, não te canses demais,” disse D. Lagosta que vivia do outro lado dos corais. “Lembra-te que há imensos predadores por aí. Tens que poupar energia para quando precisares.”
           No entanto, Taddy Sete continuava a explorar as maravilhas que o rodeavam e cada dia nadava para mais longe que no anterior, regressando com histórias maravilhosas de lugares que tinha visto e de novas criaturas que tinha encontrado.
           Uma manhã, quando olhava a sua imagem reflectida nas brilhantes bochechas de uma pérola branca, reparou, com horror, que tinha dois enormes paus móveis crescendo do seu corpo.
           “Saiam, deixem-me,” dizia enquanto tentava sacudi-los vigorosamente.
           “Socorro! Ajudem-me. Tirem-mos de cima, implorou ele aos seus aterrados irmãos.
           Após o choque inicial, a pequena colónia de girinos depressa se organizou e decidiram arrancar  com as suas bocas aqueles paus que pareciam ter vida própria.
           “Pronto, vamos contar todos até três e puxamos todos aqui,” disse o mais velho dos girinos.
           “Puxamos antes de dizeres três ou depois?” perguntou o girino com aspirações a cientista. “É um, dois e puxamos ou um, dois, três e puxamos?”
           Cinco minutos mais tarde estavam todos preparados.
           “Um, dois, três...Puxem!” E todos puxaram com quanta força tinham.
           “Páaaaarem! Ui que dói!” gritou o meu avô cheio de dores. “Oh! Que desgraça. Nunca me verei livre destes dois horríveis paus!”
           Isto foi demais para a velha senhora Lagosta que tinha sido acordada com toda aquela algazarra. Zangada ao princípio, agarrava-se agora à barriga de tanto rir.
           “Escutem –ah! ah! ah! – admira-me que os vossos pais não vos tenham explicado isso antes de partirem. Isso não são paus mas as vossas próprias pernas traseiras. Todos os jovens girinos têm que passar pelas mesmas metamorfoses até crescerem e serem sapos. Primeiro desenvolvem-se as pernas de trás e depois as da frente. À medida que as pernas crescem, a cauda vai diminuindo, diminuindo até desaparecer por completo. Em breve todos vocês serão uns bonitos sapos verdes; todos vocês aprenderão a saltar e a coaxar.
           Ninguém abriu o bico enquanto a senhora Lagosta Vermelha falava.
           “Será verdade?” pensavam para si próprios.
           Pressentindo a sua incredulidade, a senhora Lagosta Vermelha continuou, “Talvez o Taddy Sete seja um pouco precoce e a sua metamorfose tenha sido acelerado devido a nunca estar quieto. Agora vão brincar para outro lado e deixem-me voltar para a minha caminha quente. Vocês são demasiado barulhentos.
           Os pequenos girinos olharam para trás para verem se lhes tinham crescido também umas pernas. Nenhum as tinha ainda, mas em breve nasceriam.
           Um a um, tal como tinha acontecido ao meu avô, todos os meus tios e tias se transformaram em sapos verdes, de pele lisinha e viscosa, o que era considerado um grande atractivo entre os anfíbios.
           Estavam todos muito orgulhosos do seu corpo e depressa casaram com outros sapos que viviam no mesmo lago. Todos, excepto o meu avô, claro. Ele continuava tão aventureiro comosempre fora, um girino livre.

           Certa vez, numa das suas jornadas, chegou a um pequeno e tranquilo charco coberto de nenúfares. Ficou tão encantado com a beleza que o rodeava que decidiu passar ali algumas semanas de férias.
           Um dia, quando descansava num nenúfar, apanhando banhos de sol e coaxando uma melodia que aprendera há muito, foi abruptamente alertado por um enorme splash, seguido de um grito aflitivo.
           Quando olhou para cima, viu a mais bela criatura que jamais vira. Na altura ele não sabia, mas tratava-se da filha do rei, uma linda princesa, com uma coroa cintilante nos seus longos cabelos dourados...
           Foi amor à primeira vista.
           Nem um pouco assustado, saltou de nenúfar em nenúfar, até à maravilhosa criatura e, na sua mais terna e profunda voz, perguntou por que estava ela a chorar.
           Sobressaltada, recuou, pois toda a gente sabe que os sapos não falam, mas passado o choque inicial, decidiu olhar bem para o sapo para se certificar que tinha realmente falado. E, o que é certo, é que ouviu de novo a mesma simpática e doce voz que soava como um arco-íris na sua alma.
           Decidiu então que não devia ter receio de alguém assim e explicou o que tinha acontecido.
           “Deixei cair a minha bola de ouro no lago e tenho medo de nunca mais a voltar a ver.”
           “Por favor não chores. Espera um pouco e eu vou ver o que posso fazer,' disse-lhe Taddy Sete.
           Mergulhou no charco e, dois minutos depois, reapareceu com a bola dourada segura nas patas da frente e um sorriso estampado na cara.
           “Aqui tem a sua bola, minha linda donzela,” e devolveu-a à princesa.
           A princesa não soube o que a levou a fazer o que fez de seguida, mas estava tão grata ao sapo e tão encantada com a sua voz calma e melodiosa que se ajoelhou e o beijou docemente nos lábios.
           Atordoado e sentindo borboletas soltas, esvoaçando no estômago, Taddy Sete não reparou no estranho fenómeno que transformou a princesa. Quando finalmente abriu os olhos, viu a mais bela fêmea sapo que os seus olhos já tinham contemplado. Ela estava no chão rodeada pela coroa da princesa.
           “Que aconteceu?” perguntou ele.
           “Foi o feitiço. O feitiço foi finalmente quebrado.”
           “Feitiço? Mas que feitiço?”
           “Um horrível sapo-feiticeiro transformou-me em princesa por eu me recusar a casar com o filho. Fez com que me esquecesse completamente do meu passado de sapo e condenou-me a viver como humana. Somente um amor verdadeiro poderia quebrar o feitiço, contou ela ruborizada.
           “Oh,” replicou Taddy Sete já completamente rendido ao amor, “e agora a tua família humana? Não vão sentir a tua falta?”
           “Logo que o feitiço seja quebrado, todas as recordações que tenham de mim serão apagadas das suas memórias...Estou tão feliz por voltar a ser eu outra vez! Obrigada por me teres salvo. Obrigada por não teres tido medo de te aproximares e de falares comigo.”
           “Bem...está a embaraçar-me. Não me custou nada. Penso que foi amor à primeira vista...Foram as feromonas, talvez” disse Taddy desajeitadamente. “Hummm, queres casar comigo?
           Claro que a minha avó disse que sim e eles decidiram fazer a casa nesse lindo charco. E como tinha vivido tanto tempo entre os humanos, a minha avó decidiu construir o seu lar dentro da coroa, e foi assim que a coroa passou a fazer parte do legado da nossa família.

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Tuesday, 19 October 2010

Quer Chova, Quer Faça Sol

           Não estás aqui. Não telefonas. Não me bates à porta.
           Passei o dia na cama. Nem sequer me levantei para ir comer. Bom, está bem, estou a exagerar, é claro que tive que ir à casa-de-banho uma ou outra vez...Mas foi só fazer o que tinha que fazer e voltar para o aconchego da minha cama.
           Numa dessas raras excursões fora da minha cama, deu para ver que lá fora o tempo estava deprimentemente radioso, o que me fazia sentir ainda pior. Como podia o sol brilhar tanto lá fora, obrigando-me a usar óculos de sol dentro de casa, quando núvens carregadas de um cinzento ameaçador me seguiam por todo o lado, obrigando-me a enrroscar ainda mais debaixo da protecção dos lençóis e cobertores?
           Sem ti sinto-me desprotegida e vazia.

           – Este não foi com certeza o melhor fim-de-semana para virmos passear. Raios e trovões e, ainda por cima, ficarmos sem electricidade!
           – É verdade, Bruno...Mas ao menos tivemos sorte de a luz se ter ido depois de termos acendido a lareira...Anda...vem...aqui para o sofá.
           – Pois, não há muita escolha. Sem luz, não há aquecedores no quarto.
           – Não...Mas aqui estamos quentinhos. Anda, senta-te aqui a meu lado.
           Uns minutos mais de resmunguice por parte do Bruno antes que o silêncio se intalasse na sala.
           – Vanessa...? – disse Bruno, interrompento a qietitude do momento.
           – Diz-me...
           – Este malvado tempo não parece ter-te aborrecido. Como consegues manter a calma? – com a cabeça deitada no colo da Vanessa, a voz dele saía agora suave e somnolenta.
           – …Não sei bem que te diga. O tempo não me parece assim tão mau. Os trovões e a chuva até parecem estar em sintonia...escuta...são como músicos numa orquestra bem conduzida. E a madeira queimada enche a sala de um odor são e acolhedor. Sinto-me bem. Neste preciso momento, não gostaria de estar em mais lado algum.
           Bruno sorri ao ouvir as palavras da sua namorada. Só mesmo ela para perceber música na trovoada e ficar enebriada pelo cheiro do fogo.
           – Mas o tempo custa a passar se estamos para aqui presos sem poder fazer nada.
           – Shhhhh...Não quero que o tempo voe. Deixa-me gozar estes momentos de silêncio interrompido, contigo. Já tinha saudades de ter a tua cabeça no meu colo – diz Vanessa tocando suavemente no cabelo do seu amado. – Sabes, quando estou contigo, faz sempre bom tempo...
           Mas o último comentário apenas foi assimilado pelo inconsciente do adormecido Bruno.

           Bruno já estava farto das reclamações de Sofia. Era a água que estava fria demais, o tempo era tão abafado que lhe esborratava a maquilhagem (porque usava ela maquilhagem estando de férias, ultrapassava-o!), o café que era servido morno e o ice tea parecia ser daquele de pó...enfim, uma interminável lista de coisas que estavam mal e que lhe desagradavam profundamente.
           Ele já se arrependera de ter comprado aquelas férias na República Dominicana. Julgara que
oferecendo estas férias, Sofia se tornaria mais dócil e menos resmungona, mas parece agora que se enganara redondamente.
           Aliás, ele já se arrependera de ter acabado com a Vanessa. Pelo menos as férias com ela haviam sido sempre relaxantes e isentas de críticas e complicações.
           Olhando agora Sofia, dava-se conta que não agira bem, que não havia pensado com a cabeça, que a troca que fizera não o estava a satisfazer. Sofia era um pedaço de mulher, não havia dúvidas, e era bem mais jovem do que Vanessa, mas aquela cabecinha – agora que a novidade havia passado – parecia-lhe demasiado fútil e as suas lamúrias sem fim, estavam a ponto de o tirar do sério.
           Mas agora também não valia a pena fazer nada – iria tentar tirar o maior partido do pacote de férias. No regresso a casa, telefonaria a Vanessa e acabaria tudo com a Sofia.

           – Sim, quem fala?
           – Olá, Vanessa, sou eu...Vanessa? Sou eu,...o Bruno.
           – Sim, sei que és tu.
           – Vanessa, precisamos de falar. Posso ir até aí a casa?
           – Ía agora mesmo sair...E tão pouco sei se há algo para dizermos um ao outro...
           – Vá lá, não sejas assim...E que tal amanhã? Podíamos encontrar-nos amanhã,...que dizes?
           – Amanhã? – a vontade de o voltar a ver era muita e também nenhuma, pois não desejava voltar a sofrer como sofrera. Mesmo assim, ouviu-se a si própria concordar em encontrar-se com ele. – Sim, pode ser, mas não cá em casa, no Baunilha e Canela. Lembras-te onde fica?
           – Sim, claro. Ás 8 da noite?
           – Não, melhor às 4.
           – Bom, está bem, como queiras...Vanessa...?
           – Diz-me.
           – Estás bem?
           – Estou óptima, porque perguntas?
           – É que a tua voz parece diferente.
           É claro que está diferente, seu idiota. Primeiro abandonas-me, dizendo que faltava algo na nossa relação, depois descubro que o que faltava era a tal garota com metade da minha idade. Como querias que eu te falasse agora? Mas em vez de dizer o que lhe ía na alma, o que saiu foi:
           – Está tudo bem. Apanhaste-me de saída, é só isso. Amanhã às 4, então?
           – Sim. Até amanhã. Um beijo.
           As mãos de Vanessa tremiam de tal forma que a simples acção de pousar o auscultador se tornou num desafio.
           Que seria que ele queria depois de três meses de silêncio?
           E ela, sabia o que queria?

           Os dias têm estado tão bonitos, e logo hoje é que tinha que chover torrencialmente. Pelo menos as novas galochas, que lhe poderiam ter custado os olhos da cara, se não tivessem sido compradas nos saldos de fim de estação do ano anterior, serão estreadas!
           Vanessa olhou-se no espelho e gostou do que via. Estava com bom aspecto e apesar de ter levado um tempão a escolher a roupa, sentia-se satisfeita com a escolha: havia acertado em cheio. Um look casual-négligé, como se tivesse pegado na primeira coisita que estava à mão, mas que ficava a matar e emanava uma mensagem perfeitamente ambígua de olha-o-ainda-poderias-ter-mas-que-já-não-tens-e-que-ainda-poderás-vir-a ter-se-a-mim-me-apetecer...
           Sorrindo uma última vez para o seu reflexo no espelho, Vanessa saíu de casa e dirigiu-se para o Baunilha e Canela.

           Quando Bruno chegou ao café, Vanessa já estava sentada a uma mesa bebendo o seu chá de menta.
           – Olá, desculpa o atraso, mas não consegui estacionamento perto... – disse Bruno, limpando a cara molhada da chuva com as mãos e sacudia o cabelo como um poodle molhado – Estás com bom aspecto.
           – Obrigada...e tu estás ensopado! – Vanessa não conseguia evitar rir-se da visão de um Bruno, que mais parecia ter acabado de sair de uma daquelas gigantescas máquinas de lavagem automática de carros. – Porque não vais à casa-de-banho tentar secar um pouco o cabelo. Ainda apanhas uma pneumonia!
           E lá foi ele em direcção aos lavabos, pedindo, de passagem, um Irish coffee à empregada de mesa.

           – Que tempo, hem? – disse ele de regresso à mesa, ainda molhado mas já não a pingar.
           – Sim, mas não marcaste este encontro para me falares do tempo, pois não? – retorquiu Vanessa, num tom um pouco seco.
           – Não, claro que não...Bem, estou a ver que não estás com paciência para rodeios, por isso vou directo ao assunto.
           – Diz-me.
           – Tenho pensado muito em ti...em nós...e cheguei à conclusão que por vezes é preciso perdermos o que temos, para apreciarmos o quanto nos é querido e nos faz falta.. Vanessa, tu és a mulher da minha vida...
           – Alto aí! Tu não me perdeste, deste-me com os pés de um dia para o outro, para ficares com aquela jovem-modelo-look-alike! Ou já te esqueceste?
           – É pá, também não foi bem assim...
           – Ai não? Então diz-me como foi?
           – ...Vanessa, eu vim aqui para te dizer que já vi que fiz asneira e que é contigo que quero ficar. A Sofia...bem, ela é demasiado imatura e demasiado exigente, sempre a reclamar disto, daquilo e daqueloutro, mesmo quando estamos de férias...
           – Estás a ouvir a barbaridade que estás a dizer, Bruno? Estás a dizer que agora queres largar a Sofia para poderes ter umas férias sossegadas!?
           – Não, não é isso. Estás a deturpar tudo o que digo...ou sou eu que não estou a conseguir exprimir-me da melhor forma. Vanessa, eu amo-te! Finalmente vi o que querias dizer com o tempo estar sempre bom quando estávamos juntos...Olha só o tempo que faz hoje e como, mesmo assim, estamos tão bem aqui, não estamos?
           Com esta é que ela não contava, que ele se lembrasse do lhe dissera há tanto tempo. Só que todas as células do seu corpo também lhe diziam que não deveria voltar atrás.
           – Só que agora, – disse, então, calmamente – nestes últimos três meses, descobri que o tempo também pode estar sempre bom quando estou sózinha. Custou-me aprender e a aceitar isso, mas a verdade é que me sinto bem como estou e não quero voltar para trás, para o que fui em tempos; quero continuar o meu caminho, sempre em frente...
           – Estás com outra pessoa, é isso?
           – Não, Bruno, não me estás a ouvir. Estou a dizer que me encontrei e que gosto de quem sou e que não estou disposta a reiniciar um ciclo de vida que não deu resultado da primeira vez.
           – Mas eu estou diferente! Eu também cresci! Agora vejo as coisas mais claras do que nunca e sei que quero estar contigo, só contigo. Quero continuar a crescer contigo. Quero envelhecer ao teu lado.
           – Não faças as coisas mais difíceis do que elas são. O que tivemos que viver, já vivemos. Agora cada um de nós tem que seguir o seu próprio caminho... Não se pode fazer com que o tempo volte atrás...
           – Mas tu, amas-me ainda?
           – Bruno, não insistas... – mas Vanessa não teve tempo de terminar o que ía a dizer, pois Bruno levantou-se da mesa com um 'Então, adeus!', dirigiu-se ao balcão, pagou a conta, e saíu do Baunilha e Canela.

           Vanessa ainda ficou uns dez minutos a olhar para a chuva pela janela, tentando evitar quaisquer pensamentos. Sabia que não podia ter agido de outra forma, pois de masoquista não tinha nada. De repente ouviu um ruido ao seu lado e olhou para cima. Lá estava Bruno outra vez, olhando-a profundamente nos olhos.
           – Não quero que digas nada. Só quero que me oiças. Neste tempo que estivemos separados eu cresci e estou diferente. Podes não acreditar, mas eu era para acabar com a Sofia apenas depois de falar contigo. Para o caso de o resultado ser o de hoje e eu ficar sem nenhuma...mas, não foi isso que aconteceu, pois vi a tempo que seria injusto tanto para ti como para a Sofia...e para mim também. Acabei há duas semanas com a Sofia e só ontem tive a coragem de te telefonar. Quero que saibas que, sim, sou o mesmo Bruno, só que mais maduro...Não tens porque acreditar em mim, mas digo-te na mesma, sei que errei! E também ficas a saber que te quero de volta e que vou voltar a tentar reconquistar-te.
           – Se julgas...
           – Não, nem mais uma palavra! Agora é a minha vez..Por ti...não, por mim, vou arranjar ajuda de um profissional, um terapeuta ou um psicólogo ou lá o que seja e vou tentar resolver quaisquer que sejam os problemas emocionais que eu possa ter para que não volte a perder ninguém como tu. Agora vou deixar-te em paz, mas vou continuar a telefonar-te até voltares a sair comigo, de manhã, de tarde, apenas como amigos, como e quando quiseres, mas podes ter a certeza que mais tarde ou mais cedo vou reconquistar-te...– e com isso, deu meia volta e voltou a sair do café.

           – Papá, Papá, conta-nos novamente a história do concerto dos trovões e da chuva. – gritaram os gémeos em uníssono.
           – Outra vez? Mas vocês já sabem essa história de cor e salteada.
           – Conta, conta-nos mais uma vez, por favooooooor! – suplicou Raquel – É que é uma história tão romântica!
           – Eu gosto da parte em que ficam sem luz e têm que dormir na sala, à frente da lareira, com o ribombar dos trovões. Porque é que nós nunca podemos dormir na sala? – perguntou Ricardo inocentemente.
           – Vá, os dois para a cama – ordenou o pai com um sorriso nos lábios – senão não vos conto a história.
           Escutando a conversa de Bruno com os gémeos por detrás da porta entre-aberta, Vanessa sentia-se invadida por uma onda de calor que lhe trespassava pelo corpo todo. É certo que a sua vida havia dado muitas voltas, mas ao conseguir superar os seus medos e receios, havia encontrado o seu lugar como mulher e ser humano na complicada teia de relações e idiosincrasias humanas.
           Se tinha sido estúpida em voltar a deixar-se seduzir por Bruno? Pois, isso, apenas a ela dizia respeito, mas, se uma coisa havia aprendido na vida é que a felicidade, essa, são meros momentos que se vão num piscar de olhos. Há que estar atenta e aberta para não os deixar escapar. Para além disso, não será arrogância a mais supor uma fraqueza de carácter sua, apenas por ser mulher, a aceitar que o amor também pode levar o homem – a querer tornar-se numa pessoa melhor?
           Se deveria ter permitido que Bruno voltasse a entrar na sua vida? Pois, era evidente que sim e aquele momento de harmonia familiar era bem prova disso.


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Friday, 15 October 2010

Take that away and there’s nothing left.

           Up to a couple of months ago she was sixty-six, looked fifty-five, and when asked, not a day older than fifty. Raised a Catholic by very strict and pious parents, she was well aware that Vanity was one of the seven mortal sins. However, her career had forced her into believing that looking younger was the key to success. And God knows that despite her good appearance she hadn’t been able to get as many gigs as before, not half, not a third, at times hardly enough to allow her to live these later and wiser years in comfort. Instead, of late she would find herself counting her pennies, checking that if she had someone come round to repair the leak in the kitchen or anything else round the house that seemed to be needing the nowadays hard-to-find honest handyman’s care and attention, she would also have enough money to pay the weekly rent.
           Why is it that when one machine stops working all the others in the house also seem to need repairing or replacing? She didn’t like throwing her old machines away. Not having married, they were the only things that had grown old with her. Not that she minded not ever having had any children. No, the maternal side of her had never been that acute. However, she wouldn’t have minded marrying Shawn Barry, that pig-headed Irishman who broke her heart sooner than she would ever have given him credit for. Then again, would he have accepted her and her career? Would she have been forced to choose between the two? At least in that case, this big fat bitch of a Life had relieved her from having to make such a no-win choice.
           She had never fallen in love again. Of course she had had her occasional affairs, which had disappeared as magically as they had started. Perhaps the ruler of Chaos had never meant her to share her heart with any other than Mr. J Mr. A-Z-Z.
           Why is it that when she most needs comfort and the company of friends, they all seem to have inconsiderately kicked the bucket or, for you, the more sensitive reader, who prefers a more flowery style, have long started pushing up daisies?
           Loneliness kills more softly but more painfully than any other death.
           The war had taken Shawn.
           Death by silence.
           ‘Do you understand me Ms Cartwright?’
           Did she understand him? No, she didn’t want to understand him. She wouldn’t understand him. Words were throbbing inside her head…they used to be music to her ears.
           ‘Ms Cartwright, are you all right? You understand we must remove it as soon as possible. It’s a safe operation nowadays. You’d soon be back home.’
           One only listens to what one wants to hear. That was what the doctor had done from the start. He didn’t want to hear or understand her refusal.
           There were six of them, five with dark hair and one ginger. She knew everyone commented on the difference. She felt that her father treated her differently, like he held a grudge against her. She’d often catch him looking at her with a deep furrowed brow.
           Once she asked her mother if she had been adopted but her mother had only laughed and said she was silly. She was a Cartwright from head to toe.
           She was fifteen when her mother became very ill. She once overheard a neighbour saying that she had a crab in her windpipe. Why didn’t they just fish it out? It couldn’t be that difficult. She and her brothers and sisters used to catch so many of them when their parents took them to the river on Sundays.
           It had been the same neighbour whom she had once heard saying that the ginger head one - herself, she’d gathered - was the offspring of shame.

           Dear Shawn,
           I regret I couldn’t visit you at Xmas this year as I’ve been in a state of deep depression since September 5th when I was told there had been a further deterioration in my brain. They put me on strong tranquillisers (supposed to help me sleep), but regrettably until the first week in December I not only still hadn’t been able to sleep nights, but then couldn’t stay awake during the day. Life was a complete haze until the first week in December. I wasn’t even bothering to wash or comb my hair, bath or do anything else except put on three stone in weight. I still only go out when it is dark to do my shopping, as I can’t be bothered to put on make-up. I’m just never well and have had a terrible cough for eight months, which my G.P. chooses to ignore, so I insisted he refer me to an E.N.T. consultant. Having waited since August, I finally saw him two weeks ago and on Friday I’m to be assessed as to my suitability to be given a general anaesthetic (that’s because my general health being so poor it could be dangerous). He has found a swelling to the right side of the larynx, which must be investigated but says he is more concerned about the voice-box. It is obvious he suspects throat cancer which has terrified me and if they want to remove the v. box I shall definitely refuse as I will not talk through a machine and have a hole in my throat. Can you imagine what it is like for a singer?
           Darling, I’m sorry I’ve talked about nothing but myself but one lives alone and hardly even sees other people; you come to be rather obsessive.
           I wish I could visit you again, but my neurologist (who deals with the stroke side of me) says I’m not to go alone in case I have another stroke; all of which does not help ease my depression.
           Hope someone’s been taking you flowers.
           I send you lots of love and I think of you all the time.

           The doctor had told them there was nothing that could be done. The priest had already been to see the dying woman. He was now in the kitchen talking to the children about the unquestionable acceptance of God’s will.
           The house had become dark all of a sudden and the walls started closing in on her. She couldn’t breathe properly. She could no longer stay in the same room as that eerie-looking man in black.
           Her father was sitting at her mother’s bedside, holding her hand. Every time she had eavesdropped on other people’s conversations, she’d been haunted by what she had heard. She should know better than to stay a moment longer in that place.
           ‘You know I’ve always loved you, don’t you? But now that you’re leaving, I’d like to ask you something that has troubled me for a long time. Sally isn’t really my daughter, is she? She’s different from all our other kids. I know that everyone in town comments on that behind my back, our backs. You can tell me, I forgave you long ago.’
           Followed by something that sounded like a feeble attempt at laughter, she heard what thereafter would be remembered as her mother’s last words.
           ‘You are really pathetic, Cartwright, of the six Sally is the only one that’s yours.’
           Not a second later, her father’s piercing howl tore through the mournful silence of the night. She could never tell whether it was due to what his wife had said or because she had passed away as soon as she had made those revelations.


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Thursday, 14 October 2010

When I'm big I don't want to be ...

          'OK, from the start. One, two, three...Stop! Stop! What's the matter Croaky? Why can't you keep up with the others? You're always loafing about. You know you need to practise, don't you?'
          Poor Croaky just looked down at his little feet, red with embarrassment Why didn't they understand he couldn't join the others?
          'One more time. One, two, three...'
          Everyone in the class started to sing. Well, all but one. Everyone except for Croaky...
          The teacher seemed to be losing his patience but, fortunately for Croaky, he didn't interrupt the class again.
          'Well done, class. You've done very well. See you tomorrow. Same time. Same place...Croaky, not you. Stay behind. We need to have little a chat, you and I.'
          'Goodbye Mr Gale.' Sang the nightingales cheerfully as they flew off.
          'So, Croaky...May I know why you refuse to sing with your mates?'
          Once again Croaky turned red with embarrassment. At home it was the same old story, 'Why don't you sing?' Why don't you sing?'
          'So, young birdie, what have you got to say for yourself?...Nothing?...Well, then, you won't leave until you've sung that last song. Let's start, one, two, three...'
          And to Professor Gale's surprise and that of the lizards', geckos' and all the bugs' lurking nearby, too, Croaky sang with a voice of gold.
          'But...that was fantastic! Croaky, you've got a fabulous voice. Why don't you ever sing along with the others?'
          'It's just that...Hmm...I just don't feel like it, Professor Gale.'
          'What do you mean, you don't feel like it?!? That's what we nightingales do – we sing! What else do you plan to do when you grow up?
          'I'm not sure yet, Professor Gale. I really still don't know what I want to be. I just know that I don't want to be a singer when I grow up. You see, when I sing, I can't hear the music of the wind blowing, the water flowing, the birdsong of the other nightingales and goldfinches, the song of crickets and cicadas...



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Quando for grande não quero ser...

           – OK. Desde o princípio. Um, dois, três...Parou! Parou! Então, Rouco? Porque não acompanhas os outros? Estás sempre à sombra da bananeira. É preciso praticares.
          O pobre Rouco olhou envergonhado para os pezitos. Porque não entendiam que não podia juntar-se aos outros?
          – Vamos lá, outra vez. Um, dois, três...
          Todos da turma começaram a cantar. Bom, todos menos um. Todos menos Rouco...
          O Professor começava a perder a paciência mas, para grande satisfação de Rouco, não interrompeu a cantoria dos colegas.
          – Muito bem, turma, portaram-se muito bem. Encontramo-nos amanhã no mesmo sítio, à mesma hora...Rouco, tu não. Fica. Precisamos ter uma conversinha, tu e eu.
          – Adeus, Professor. – cantarolaram alegremente os rouxinóis ao levantarem voo.
          – Então, Rouco...Posso saber porque não cantas como os teus colegas?
          Rouco estava vermelho de embaraço. Já em casa era sempre a mesma conversa: «Porque não cantas? Porque não cantas?»
          – Então, avezinha, que tens a dizer?...Nada?...Pois, então, não te vais embora sem cantares a última canção. Vamos, um, dois, três...
          E para surpresa do Professor Rouxinol e das lagartas, lagartixas, e dos outros bicharocos que se encontravam por perto, Rouco cantou com uma voz de ouro.
          – Mas...fantástico! Rouco, tens uma voz fabulosa. Porque não cantas com os outrros?
          – É que, Professor, não me apetece...
          – Como que não te apetece?!? É o que fazemos. Nós os rouxinóis cantamos. Que mais pensas fazer quando fores grande?
          – Não sei, Professor, ainda não sei o que quero ser quando for grande. Só sei que quando for grande não quero ser cantor. Quando canto não consigo ouvir a música do vento, da água a correr, das canções dos rouxinóis e dos pintassílgos, dos grilos e das cigarras...



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Tuesday, 12 October 2010

Friendship /Amizade

«A single rose can be my garden... a single friend, my world. / Uma única rosa pode ser meu jardim… um único amigo, meu mundo.» - Leo Buscaglia

Monday, 11 October 2010

Swimming with fish

        At six thirty her alarm clock went off like it had been going off day after day ever since she could remember. She knew the drill, get up, wash, dress, have a bite to eat and go to work. Why should today be any different?
       Once on the landing she pushed the button. That minute or so it took for the lift to get there always seemed longer. Why was that? There. She held her briefcase tightly against her legs as the lift descended. Thirty-second. Thirty-first. Thirtieth. Halting on the twenty-eighth. The door opens to let somebody else in but nobody is there. Twenty-ninth. Twentieth. Door opens again. Nobody. She wishes there were somebody there.
        The door opens twice more before reaching the ground floor. She goes out without once looking in the mirror behind her.
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        Nobody said anything. In fact they didn’t even look up as she came into the staff room. Fifteen years she had worked for that company, you would think they would remember her birthday. Nothing. Not even a hello. Why should they when she herself hadn’t bothered to put on the new dress she had bought especially for the occasion just the week before. She had promised herself her life would be different come her birthday. Ridiculous. How could a dress have such a life altering effect? Besides, had it ever possessed any magical powers they had disappeared into thin air even before she had reached the lift.
        Would they notice if one day she didn’t turn up for work? And the next and the next…Forever…Never?
v
        If you want it you’ve got to make it happen. Wise words. At least they hit a nerve when her favourite TV show host uttered them.
        ‘They make so much sense,’ she mused, a shiver of excitement running down her spine as she experienced her epiphany. ‘It’s now or never.’ She grabbed her jacket and handbag and left the house. Even the lift seemed different, floating gently down the thirty-three floors. And for the first time in so many years – she could hardly remember when – the doors opened and someone got on. She looked up at the glistening red number above the door – twentieth. Nobody ever seemed to be there when the lift stopped to pick up more passengers. She had always wondered who would call the lift and then not get on.
        He was in his late forties, his jeans held up by a belt just under his potbelly, his shirt unbuttoned to right above his navel, and a thick gilt cross dangling from a chain around his neck. He was picking at his teeth with the long nail on his pinkie. Not the most attractive sight but she would have loved to hear him say ‘Good afternoon’.
        If you want it you’ve got to make it happen. If you want it you’ve got to make it happen. If you want it you’ve got to make it happen. With the confidence bestowed on her by the power of three she found herself saying ‘Good afternoon’. However, either her voice came out too feeble only mumbling the words or the man ignored her by picking at his teeth with more passionate diligence, adding a few slurping sounds as he did so.
        Her spirits would not be broken. After all, the fact that someone had actually got on the lift at all was a good sign, wasn’t it?
        She went into a couple of shops and browsed though the clothes racks completely unnoticed. None of the shop assistants wasted a second’s glance on her.
        In the window of the next shop there was the loveliest navy-blue porte manteau she had ever seen. This is what she wanted, discreet yet classy. She would wear it on her birthday next week. It would help her start again with a clean sheet.
        She went in and asked to try it on. It was the only one left and seemed to be her size. How lucky could she get?
        The shop assistant gave her a long hard head to toe stare and asked wouldn’t she rather try one of the other dresses more in her price range. With her face as hot as a blacksmith’s iron she said no, that one would do fine. In the changing room her head was twirling around in anger and shame, more shame than anger truth be told, and just went through the motions of undressing, trying on the dress, and putting her own clothes back on without once looking at herself in the mirror.
        ‘I’ll take it.’ Yes, indeed it was more than she could afford, but she could not backtrack now.
        The early high crumbled away with every step she took and by the time she reached the lift her head hung low, crestfallen, while her arm dragged the unbearably heavy bag with the blue dress.
        Once bubbling with promises of a new life, the dress was thrown, unbagged, into the deepest and darkest recesses of the wardrobe. She then went to bed only to wake up the following morning to the sound of the alarm clock. It was six thirty.
v
        ‘Janet.’ She startled when she heard her boss’s voice over the intercom. It wasn’t because she wasn’t Janet, she’d got used to that a long time ago. Janet had been his first secretary about twenty-five years ago and he had never bothered to learn any of the subsequent secretaries’ names. She had given up correcting him. She always signed her emails with her own name but he never acknowledged it. In fact he never read the name. He never wasted time and had always known what was really important and needed his attention and what was futile. After all, his nickname was ‘the Money-making Machine’. He knew he was good and so did everyone else. No, what caught her off guard was the fact that he actually used the intercom. He never spoke to her, not even to return her ‘Good morning, Mr Lynch’ as he walked past her desk in the morning. It was like she was invisible. What is more, she could go for days without seeing him. Some days he was the first to arrive, others he got in while everyone else was out for lunch. Truth be told they really didn’t need to communicate. Everything could be done through emails these days.
        ‘Shall I come into your office, Mr Lynch?’ Perhaps he had been looking at the personnel files she had left on his desk the previous evening and realised it was her birthday. She trembled with emotion.
        ‘No, that won’t be necessary. As you know – she did not, but would soon find out – we’ve decided to restructure and we must let some people go. Stop by the Human Resources this afternoon so we can get the paperwork started. We won’t be needing your services anymore. In the meantime, mail me the documents on Smith and Co.’
        ‘But…’ But nothing. He had already hung up.
        She couldn’t stop shaking. ‘Calm down. Calm down. Concentrate on the light. I am surrounded in the pure light of energy. I am surrounded in the pure light of energy. I am surrounded in the pure light of energy…’
        Surrounded…Light…Energy…And finally she stopped shaking and her mind was filled with his presence. ‘It’s time. You’re ready. Meet me on the cliff where the gulls meet. There’s a bench by the edge. Wait for me there.’
        Now she was trembling with excitement. He had never sounded so real. Actually, it was the first time her guide had spoken to her; until then he had just been a soothing presence that made her feel that everything was all right.
        She stood up, put on her jacket and without once looking back or saying a word to anyone, she left the office.
        She would go there now.
v
        ‘Wheeeeeee… – I can fly! The lightness. The freedom. The beauty. And look at those birds – they actually want to be with me! See? I can fly too!’
        Closing her eyes, she let the cool breeze flirt with her face and tease her hair. For the first time in her life she felt the warmth of being alive.


        She could also feel herself falling rapidly.
        She opened her eyes and had but a moment’s glimpse of the parading silver fish in the cold grey water before she joined them.
        ‘Ouch, that hurt. I absolutely must work on my dive.’
        ‘Look at me, look at me, I can swim and twirl like a mermaid.’
        And then there was silence. A deep dark lonely silence.
v
        It was in that drowning silence that Lydia heard her heart beating for the first time.
v
        She found herself running down a broad palace corridor, circling the tall ornate columns. Everything was happening so fast she felt dizzy. Or perhaps it was just her sudden spiralling descent down the cold stone staircase. She didn’t know where she was going or why she was running like mad; it was as if a strong magnetic force was pulling her downwards.
        There was activity on every landing but either it was just too far off for her to make out what was happening or she was in too much of a hurry to stop to see what was going on. On one of the landings stood a majestic angel surrounded by a bright yellow light, looking right at her.
        Invaded by such powerful feelings of well being and love, a split second she did stop, wishing she could stay. But she couldn’t…the force calling her from the centre of the earth was just too powerful, so she resumed her descent.
v
        The transformation was going on at cell level. She could feel it.
        By the time she reached the bottom she was wearing a long silver cloak and her hair was now waist-long and of a silvery-white colour. In front of her lay a long dark corridor lit only by the light coming from the yellow ball of fire she was carrying between her hands. At the end of the corridor a wooden crib, waiting to receive the ball of fire, which promptly turned into whizzing fireworks of colour. The young woman was so ecstatic with joy that she was unable to restrain tears from rolling down her cheeks. Those were tears of blood.
        One moment it was blood, the next, ritual paint on the face of a young Indian woman’s face, kneeling on the ground and fervently rubbing sticks to start a fire. She was chanting the chant of life:

Fire, Fire,
Burning high
The time has come
Reach for the sky!


Painted faces staring high
All the while
Tired feet
digging deep
The barren ground

To the beat of
Chaos
Do they go

Illuminate us,
Oh Slender Flames!
Guide us through the woes of time


Burn the pain of
Tortured lives
Let their ashes
Fill the plains
With seeds of hope –
If but for a day

        There were no flames. Instead, a dense smoky figure of a bearded man materialised, pointing to the high mountain way off in the horizon. That was where she had to go.
        Up and up she climbed and before her strength failed, she turned into a mountain lion. At the top of the mountain the lion changed into a man who looked around, far and beyond to choose the way he would go, then, as he leaped off into the abyss, an eagle he became. The eagle flew bravely against the strong winds until the need for another transformation arose. This time a winged horse was summoned to meet the challenge…
v
        A woman tries to calm the tired beast down. ‘Calm down. Calm down, ‘ she says stroking Pegasus between his eyes, ‘the world is not about to vanish. You are not going to vanish.’ …And little by little did Lydia return.
v
        With her hand still on Lydia’s forehead the woman engraved these words of Time in her mind:

Across a field of
Daffodils
The little prince goes
A gush of wind – And the
Whole world he knows
Dissolves.
Now a woman,
In the wind she sways
On her head – A warm bushy
Crown of leaves
Prancing to the cliffs she goes
Dive!
The silver fish implore below
Fly!
The hungry seagulls cry above
Stop! Jump no more!
The yellow daffodils pray aloud
Don’t you see?
It’s time to stay
Root your feet deep in the ground
With your branches brush the clouds away
Now an Oak,
Seize the day
And learn this life as well
As a fleeting moment in all eternity
Floats away

        ‘You’re ready. Go back and live this life of yours.’
v
        Now, bearing the strength of the Indian woman, the mountain lion, the man, the eagle and the winged-horse, Lydia sets off again on her very long walk home – along a river, down the rocky walls of a majestic waterfall. Only once along her way does she stop – to bend down and pick a yellow daffodil. Before her nose can touch the flower, she finds herself back by the crib where a baby boy lies. She knows what she must do. She picks him up and carries him up the spiralled staircase.
        At the top of the staircase a man is waiting for her. She hands the baby over to him.
        In a tight hug they become one. Everything is as it should be…or perhaps not quite, for she is invaded by a feeling of restlessness, of something left undone.
v
        Haunted by the angel on the landing below she decides to go back. Time is running out, she can feel it. But she needs to know.
        ‘Who are you?’
        ‘Aerial,’ he replies warmly.
        ‘Is there a message for me? Is there something you want to tell me?’
        ‘No. Just to wish you a happy birthday.’ A hint of amusement reflected in his warm eyes.

        ‘It’s not my birthday. My birthday’s in March. It isn’t in September, is it?’
        That was when she came to herself. What kind of tricks was her mind playing on her? One moment she had jumped off the cliff, the next moment she was still standing there…
        With her legs shaking, she stepped back from the edge and sat on the ground.

        Aerial… so that was his name. Her guardian angel! He had done more than just wish her a happy birthday: He had actually led her through death and guided her back to life. She would jump no more. She would dig her feet deep into her life and brush the gloomy clouds away.

        Hello. My name is Lydia and my birthday is on 2nd of September.



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Friday, 8 October 2010

A special request!

If you are one of the regular readers of my blog, could you please leave a comment now and then? You see, all my texts are copyright and I am seriously thinking about having them published. Suppose that's the next step...However, it would be nice to get some feedback beforehand. Your comments would certainly be invaluable!
Thank you very much for your interest in my blog.
I look forward to reading your comments.

Best wishes.

Kite, Eyes and Rubies


Above a cliff
A kite flies high
Scissors snap
hand slides down
to her side

The faithful kite
drops to the ground

Pick it up!
Fly it high one more time

This time round kite and girl
Waltz
sky high

It’s time
For girl and kite –
entwined – to become
One

Free fall down the rocky falls
It hurts
She’s had enough of this
ride of life

Silent waters
hold her down in a tight embrace

No! The time to sink away has not yet come!

Take that shell
And free yourself from that string that binds

Good girl –
Now up and up you must go
Grab the air above with might and
Wait for the White Eagle to come
And claim your eyes

Red rubies in their stead
White eagle
Will leave behind.


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